Acadêmico Domício Proença Filho

Entrevista a Cláudio Aguiar

VENCEDOR DO TROFÉU RIO 2015

Criado e concedido pela União Brasileira de Escritores, Secção do Rio de Janeiro (UBE/RJ), o Troféu Rio é uma promoção cultural dedicada aos mais respeitados intelectuais brasileiros e destacadas entidades culturais. Já foi outorgado ao longo de suas doze edições às seguintes personalidades: Nelly Novaes Coelho, Casa de Cultura Rui Barbosa, Museu do Folclore Edson Carneiro, Carlos Lessa, Ferreira Gullar, Gilberto Mendonça Teles, Cleonice Berardinelli, Ruy Castro, Ana Maria Machado, Astrid Cabral, Stella Leonardos e José Arthur Rios.

Domício Proença Filho foi a personalidade literária eleita para o ano de 2015. Doutor e livre docente em literatura brasileira, lecionou na Universidade Federal Fluminense, de que é Professor Emérito, além de inúmeros outros estabelecimentos de ensino fundamental, médio e superior, entre eles, a UFRJ e a PUC Rio. Foi Professor Titular Convidado da Universidade de Colônia e na Escola Técnica de Altos Estudos de Aachen, na Alemanha. Idealizou e produziu para a Rádio MEC, entre outras obras, a série “Nos caminhos da comunicação”, com cem programas centrados no nosso idioma. Foi diretor de textos da Enciclopédia Século XX. Ministrou cursos de atualização em língua portuguesa para professores e de português instrumental e comunicação na empresa. É membro, entre outras instituições, da Academia Brasileira de Letras, da Academia Brasileira de Filologia e do PEN Clube do Brasil e Membro Correspondente da Academia das Ciências de Lisboa.

Nascido na cidade do Rio de Janeiro, em 1936, Domício Proença Filho escreveu e publicou cerca de 60 livros, entre os quais destacamos: Estilos de Época na Literatura (1967), em 20ª edição; A linguagem literária (1997) em 8ª edição; Dionísio esfacelado-Quilombo dos Palmares. poesia, (1984), Oratório dos Inconfidentes, poesia (duas edições em 1989), ambos esgotados; Estórias da mitologia: o cotidiano dos deuses (1994); Capitu – Memórias Póstumas (1998), romance, traduzido para o italiano, também esgotado; O Risco do Jogo, poesia, (2012). Tem, no prelo, para breve lançamento, a segunda edição do premiado Breves estórias de Vera Cruz das Almas.

Cláudio Aguiar – Entre os escritores, de um modo geral, parece correr um desejo de cobrir todos os gêneros, sobretudo quando eles se iniciam no culto das letras. Só a maturidade lhes dá aquele certificado capaz de os qualificar para o exercício fecundo de um certo gênero e com ele se imortalizar. Machado de Assis, por exemplo, iniciou sua carreira como crítico, depois poeta, mas foi na prosa, como contador de histórias curtas que ele se consagrou nas letras brasileiras. No seu caso, entre o professor, o autor de livros didáticos, o crítico de literatura, o poeta e o narrador, agora, na maturidade, qual o gênero que mais lhe incita à produção intelectual?

Domício Proença Filho – Essa atividade multifacetada sempre me acompanha, desde os tempos da Faculdade Nacional de Filosofia. Verdade que o poeta sempre esteve presente, mas só bem mais tarde ganhou letra impressa. O ficcionista, muito depois. A função de crítico do texto alheio mobilizou uma forte exigência em relação aos meus próprios escritos. O professor sempre esteve dividido entre a língua e a literatura e as matérias correlatas. Prefiro, a propósito, passar a palavra a Alberto Pucheu e Caio Meira que escreveram, e a responsabilidade do juízo é deles, que “como ensaísta, crítico, ficcionista e poeta”, tenho como tema primordial “a linguagem em si mesma, em suas articulações enunciativas, e em seus desdobramentos históricos e, sobretudo, poéticos”. Para ser sincero, não os desminto. Tanto que se encontram no prelo um livro de miniestórias e dois livros de ensaio.

CA – Como explicar a longevidade de um livro como Estilos de Época na Literatura, lançado em 1967? Estará por trás dele a fama e a comprovada capacidade do professor que se notabilizou em todos os graus do ensino no âmbito da cultura brasileira?

DPF – Obrigado, Claudio, por sua generosidade. É difícil, na condição de autor apontar as causas da permanência e da atualidade de um livro dessa natureza. São mais de cinquenta anos de catálogo, que, confesso, me surpreendem. Gratamente, é claro. Na base de tudo, talvez se situem algumas razões: a categoria que privilegia: estilos epocais; o apoio sempre nos texto; a preocupação com a clareza, a dosagem e a objetividade na apresentação dos conceitos. A perspectiva diacrônica da literatura como base nos estilos de época pode ser um critério carregado de imperfeições, mas, acredito, está entre os que ainda melhor possibilitam uma visão panorâmica do processo literário. Desde que a categoria seja entendida como resultando de uma dinâmica, para além de limites redutores. O texto é a matéria-prima de literatura. clareza, dosagem são elementos mobilizadores da cumplicidade do leitor. É isso.

CA – Em seu mais recente livro de poesia – O Risco do Jogo –, o leitor logo descobre rico e insinuante jogo de ideias e imagens, como no caso de palavras, às vezes, solitárias e prenhes de significados, a exemplo do poema “Fascínio”, expresso com apenas um termo com força dialogal: “- Vem...” Que mais quis deixar o poeta gravado em seu verbo, além de um certo veio denunciador que o crítico Alfredo Bosi chamou de “grito de dor”?

DPF – Claudio, acredito que uma das marcas do texto literário, é a ambiguidade, a multissignificação. Minha resposta a essa pergunta seria prejudicada pelas armadilhas da intenção e essa tem pouca ou nenhuma relevância, no caso. Seria apenas mais uma leitura. Deixo aos dez ou vinte leitores dos poemas, entre os quais você, as descobertas que as vivências e a sensibilidade de cada um encontrarem no silêncio dos poemas, ou seja, o risco desse jogo que une autor, texto e leitor. Qualquer manifestação minha a respeito seria suspeita e direcionadora...

CA – Acima tocamos em temas ligados mais diretamente ao professor e ao poeta. No entanto, convive, ainda, no escritor Domício, a constante preocupação com o Destino da Língua Portuguesa, de suas origens aos mais importantes processos de ramificações e transformações sofridas por esse belo idioma, que se convencionou chamar também de “a última flor da Lácio”. Que poderemos esperar de seu próximo e frondoso livro sobre a história da língua portuguesa, principalmente no que diz respeito ao português sedimentado e falado no Brasil ao longo de mais de cinco séculos?

DPF – Esse livro corresponde a um desejo pessoal antigo. Foi escrito com um objetivo básico: mostrar, de maneira simples, o que aconteceu com o português que chega ao Brasil na fala de Cabral e de seus comandados no processo de sua transformação no português brasileiro. É bom esclarecer que se trata de um esboço, não de um retrato. Na verdade, quando o escrevi, pensei nos estudantes de letras e nas pessoas com alguma curiosidade a respeito da história brasileira do idioma em que nós, brasileiros, nos expressamos. Em paralelo, busca mobilizar a atenção para fatos de relevância vinculados ao uso da nossa língua oficial nas múltiplas e várias circunstâncias do convívio comunitário, entre elas, a relação entre a fala e a situação de fala e a língua e a inclusão social. Os colegas especializados nesses assuntos podem ficar tranquilos: se, por acaso, forem movidos pela curiosidade da leitura, o que muito me alegrará, encontrarão nele, nos dois casos, matéria de todos consabida. Gratíssimo, Claudio, por suas perguntas e pela deferência. E viva o PEN Clube do Brasil!



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